Besouros tem pressa. São capacetes-granada. Kamikazes sem religião, partido político ou tique nervoso. Prontos para se jogar contra testas ou blocos de concreto. Daí sua educação ser tão complexa. Os besouros amam a dúvida bem antes de aprender a amar o ninho. Porque sabem que voos são quedas. E cada porto, o final temporário de um precipício. Mas não é fácil para o besouro, em sua admirável deselegância, se descobrir primo de coleopteros famosos e aclamados como os vaga-lumes e as joaninhas. Daí não ser raro, além de triste, o episódio em que besouros entram em escolas de aviação, acoplam lanternas ao corpo ou se jogam em latas de tinta fresca para se aproximar dos primos. Tudo em vão. Porque besouros não são feitos de gesso, mas de bala perdida. Insetos do acaso. Dúvidas de armadura. Prova viva de que mesmo tendo as asas rígidas, toda desorientação é possível. É por isso que sempre que um besouro cai, eu insisto: que bonito é voar sem planos.

Há uma beleza triste, ainda que grata, em sorrir hoje de coisas que eu vi quando ainda não sabia o valor das lembranças. Uma despedida da memória-tabuada. Desarrimo de casca de laranja. Um revirar de armário para encontrar uma bobagem que nunca nos fez tanta falta. Minha Tia Maria é um desses momentos. Uma janela grande e uma casa pequena. Coisa de quem sabe que a vida é pouca demais na gente. Lembro das bonecas e do cigarro. As mãos habilidosas e a boquinha apertada sem paciência. Coisa de avó-menina que sabe das bobagens da gente. Bordava como ninguém. E eu, pequena demais, perdia as mãos e os dedos para observar as linhas. Caixas e caixas de cores muito mais organizadas que as minhas vontades. Dos suspiros da Tia Maria, um mundo de ponto cruz atravessa a gente. Era bonito de ver. Principalmente o avesso. Tia Maria se orgulhava dos avessos. Precisos. Limpos. Nítidos. Os caminhos infinitamente lindos de tudo que a agulha não expõe. Eu não percebi, mas ela dizia: aos olhos atentos, as miudezas mais doces.

DADU SHIN
saudade é um samba em silêncio,
que o tempo, esse lenço,
desamará.
Há uma armadilha silenciosa na louça reservada para as mesas de lanche. Um vício de armário. Rotina de pó. Bambolê sem espaço para os movimentos da gente. É ele: o pratinho. Uma ameaça à experiência antropológica a que chamamos de pão francês crocante. O pratinho é um carrasco. Delator da repercussão dos nossos farelos. Dentro, fora. Refinados, vikings. O pratinho é uma advertência. Rede da civilidade das nossas mordidas. Um pedido de comedimento que deve ser ignorado. Quando alguém deixa de lado um pratinho, silencia uma geração de conspiradores. E deixa claro: no mundo imprevisível das mordidas é imperativo não julgar nossos farelos.

Na rua do mar nunca falta fôlego. É que na brisa moram os movimentos da gente. Rumores-conchinha. Intercâmbio de baleias. O endereço em que as ventanias são entregues sem remetente. E no qual nenhum ventilador é ligado. Porque ventilador é sopro de onda parada. Microfone de sussuro. Bafo de eletricidade. Na rua do mar, todas as mães ensinam, não se balança pé de amora com ar inventado.

Black and WTF
Arma ou brinquedo, um bumerangue nunca é por acaso. É por isso que a perda requer mais cautela que coragem. O bumerangue é uma arma de arremesso. Proximidade de bolso. Conhecimento involuntário da distância. O bumerangue é um esporte de anzol. Arremate silencioso sobre o que não se vê. Arpão de quem não quer se mover na distância. Um bumerangue não se perde em oração, vento ou destino. Para perder um bumerangue é preciso descuido de espirro para lançá-lo ao chão. E fé na leveza para cortar o horizonte com as pernas.


ffffound
Movimentos leves são difíceis, não se preocupem. É que os hábitos-resposta a tudo que não fomos avisados é um reumatismo silencioso. Uma paralisia que é mais triste nos olhos que nos ossos. Uma expectativa-junta que só fica mais rígida com o tempo. Ficaremos parados: é verdade. E passará por nós tudo que não gostaríamos que tivéssemos passado. Mas, por favor, tenham fé no descuido. É na dormência das lembranças que mora o movimento. E na fraqueza do esforço nos moveremos. Como é suave se desgarrar de um bando-memória. Vocês repararam? Todo esse tempo vestidos de soldados, só hoje percebemos o unicórnio que nos leva entre os olhos.

Sobravam teorias para aquele homem de corpo maior que as vontades. Aquele galpão, aqueles televisores. Tantas cores e tubos. Coisa de quando se cresce antes da cidade. Menino que descobre não doença, mas um acometimento raro. O de nunca ver um filme até o final.
Impedimento de olho piscador. Sensibilidade aguda, sadismo ou tédio fatal. Uma chatice paralisante. Conexão aérea, dessas em que toda voz perto fica distante. Coisa de olho no olho. Ou de olho no televisor, naquele caso.
De lá para cá, e estamos falando de uma boa dezena de anos. De lá para cá, esse homem colecionava todas as cenas bonitas que ele não conseguiu ultrapassar. Não em papel, anotação, arquivo de cachola. Mas em televisor paralisado. Vídeo cassete. DVD. Uma vida dedicada a eletrônicos e tomadas. Uma cidade inteira que reza em dias de trovão. Crianças que pedem televisores de Natal só para descobrir a próxima cena paralisada no mundo daquele senhor.
A prefeitura não pode dizer que é por bondade que não lhe cobra a conta da luz. Mas por turismo. O galpão daquele homem, todas aquelas cenas incrivelmente lindas. Uma infinidade de cores e preto e branco vibrantes. Momentos-choque em eterna pausa na retina.
Era tudo bonito demais para alguém questionar se era loucura grave. Melhor tombar como patrimônio. Era bonito viver na cidade das lembranças. Ainda que fossem as lembranças do outro.
A última notícia que se tem é de um turista que foi preso tentando apertar o play de um dos televisores daquela coleção. Em seu depoimento disse que não podia entender como alguém podia saber se aquele era o momento mais bonito do filme sem ter visto o filme todo. Mais tarde, ao ler a declaração, o senhor deu uma risada e disse que não era questão de escolher o momento mais bonito. Só de agarrar sem um segundo de atraso as coisas que mexem com a gente.